Cosme Machado: “É difícil ser árbitro em Portugal”
Tuesday June 02nd 2009, 20:25
Filed under: Imprensa

A equipa do ÁrbitrosPortugal equipou-se a rigor e seguiu, durante uma semana, as pisadas de Cosme Machado, árbitro famalicense de 1ª Categoria. Desde o seu local de trabalho aos treinos semanais de árbitros, passando pela corrida matinal ao sábado, ficámos a perceber melhor como é que o funcionário camarário lida com as ocupações que tem, e como consegue esticar o tempo para, no fim de tudo, ainda passar tempo com a família.

Na Câmara de Famalicão, é difícil olhar para alguém e ficar a interrogar-se de onde se conhece essa pessoa. Por ser um meio relativamente pequeno, quando comparado com Braga ou Porto, é frequente conhecer-se uma ou outra pessoa. Ou porque mora na mesma freguesia, ou porque é da família. Quando se entra na tesouraria rapidamente se percebe que o funcionário lembra alguém – e não é nem da família nem da mesma terrinha. O próprio confirma: “Às vezes, as pessoas mais ligadas ao futebol olham para mim”.

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Visibilidade nem sempre é sinónimo de coisas boas, desenganem-se os mais incautos. Após os jogos com os grandes, que passam invariavelmente na televisão, as pessoas chegam a interpelar o árbitro da Associação de Futebol de Braga. Perguntam “como é possível errar”. Cosme faz questão de salientar que não fica satisfeito quando as coisas correm mal. “Ninguém fica mais frustrado que os árbitros, quando há um erro”, vinca. Lucílio Baptista, responsável pelo pior erro da temporada (segundo votação dos nossos leitores, para a qual se fez um top 10), foi “vítima de uma injustiça”, devido a todo o circo mediático que se montou sobre o juiz de Setúbal após ter marcado grande penalidade num lance entre Di María (Benfica) e Pedro Silva (Sporting).

São 16h30 e o movimento é muito reduzido. Falta pouco para esta divisão da edilidade famalicense encerrar. Cosme Machado está atrás do computador, que tem como ‘wallpaper’ a foto das filhas, e o ambiente com os colegas parece ser de uma certa proximidade. O árbitro é uma pessoa acessível, o que justifica algumas piadas que os colegas fazem sobre o seu cabelo (ou a falta dele).

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Sábado de manhã é uma boa ocasião para encontrar o homem do apito a brincar com as suas filhas. No Parque de Sinçães, em Famalicão, a família Machado aproveita para fazer desporto em conjunto: a mais velha anda de bicicleta, a mais nova ainda não caminha mas também passeia, e o pai aproveita para fazer umas corridinhas: “Treino aqui todos os sábados de manhã”.

“Jogadores preferem atirar-se para o chão”

“Quando erro, lamento o erro”, assume o funcionário público. Admite, porém que o facto de o árbitro se pronunciar sobre uma jogada em que tenha cometido um erro é um ‘pau de dois bicos’: se não fala, “não tem coragem” para assumir o erro; porém, se fala, “ não sabe o que diz nem o modo como aborda o assunto”.

Cosme Machado afirma-se a favor das novas tecnologias ao serviço do futebol, desde que o futebol não se torne “demasiado mecanizado” em virtude disso. A profissionalização, de igual modo, “é o caminho”. Os erros não vão desaparecer, mas vai haver “um trabalho mais profundo”. Pergunta atrás de pergunta, o árbitro revela-se bem-disposto e à-vontade com todos os temas que vão surgindo.

Mostra, porém, cartão amarelo quando se aborda a incompetência na arbitragem, tema aflorado por Rui Moreira (cf. áudios): “Não há incompetência, há erros humanos”. A explicação prossegue, com Cosme prestes a sacar da segunda cartolina, que equivale a expulsão: “Ninguém questiona as substituições dos treinadores… há incompetência em todo o lado”. Também nos jogadores, em alguns lances? “Não há mentalidade de deixar fluir o jogo, eles [jogadores] preferem atirar-se para o chão”. Regista-se, saúde-se, uma “evolução” nesse aspecto.

E a chamada jarra? Vítor Pereira respondeu-nos a uma questão bónus, sobre a jarra. Ouça com atenção:

Vítor Pereira e a "Jarra"

Cosme é de opinião semelhante: “Os árbitros que estão em melhores condições apitam, os que não estão ficam de fora para ganharem confiança”.

“Abdiquei de muitas coisas em prol da carreira”

O famalicense é árbitro desde os 17 anos. Desde então, abdicou “de muita coisa em prol da carreira”, quiçá, talvez, por ser, como admite, “ambicioso”. Chegado à 1ª categoria em Portugal, o objectivo passa por “ir mais além”, que é como quem diz tornar-se árbitro internacional.

Apesar do sucesso que granjeou, Cosme não esquece aqueles que não conseguiram progredir até aos patamares mais altos da arbitragem: “Esses são exemplo, pois têm muita dedicação à profissão”. É que “não é fácil ser árbitro em Portugal…”. Também admite ter saudades dos períodos em que não há jogos e salienta que, apesar de os ordenados dos árbitros serem adequados ao contexto sócio-económico nacional, “os jogadores ganham milhares de euros, quando os árbitros também têm um papel muito importante no jogo”.

Livre acesso ao 1º de Maio

Cosme Machado a fazer alongamentos

No treino dos árbitros, que se realiza todas as terças e quintas-feiras no Estádio 1º de Maio, em Braga, há várias coisas que saltam à vista. Em primeiro lugar, qualquer um pode entrar pelas instalações e aceder ou ao balneário dos árbitros ou ao relvado, sem que haja qualquer controlo. Além disso, as instalações usadas pelos árbitros são junto àquelas usadas pelos jogadores das camadas jovens do Sporting de Braga e até pelos atletas, o que já motivou algumas “bocas”, segundo Cosme Machado.

No relvado, de um verde vivo e extremamente bem cuidado, os árbitros treinam aspectos físicos, com vários exercícios (abdominais, de extensão…), bem como aspectos técnicos (situações de jogo em que têm de ajuizar, que são supervisionadas por um técnico de arbitragem). Por ser fim de época, quando nos deslocámos ao 1º de Maio os árbitros apenas fizeram um jogo de futebol. As pulsações são controladas com um pequeno aparelho, colocado debaixo da camisola, e depois enviadas para a Liga Portuguesa de Futebol Profissional.

O treino ainda decorre, quando a reportagem abandona o recinto, da mesma forma que decorreu quando lá estava: com brincadeiras, piadas, palavrões. São na mesma rapazes atrás de uma bola, apenas mais crescidos e impedidos de lhe tocar.

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