“As pessoas ainda ficam admiradas por aparecer uma mulher-árbitro”
Monday June 01st 2009, 18:29
Filed under: Imprensa

Marlene Vieira, uma presença ainda rara num meio dominado pelos homens

Marlene Vieira, de 31 anos, entrou no mundo da arbitragem há mais de uma década. Hoje, esta árbitra de Barcelos tem o estatuto de 1ª categoria e afirma-se satisfeita pelo que fez no mundo do futebol. Em entrevista ao Árbitros Portugal, a juíza declarou que a mentalidade dos portugueses ainda não está completamente receptiva a uma mulher-árbitro e disse que é cedo para se falar em profissionalização da arbitragem feminina.

Marlene Vieira equipada a rigor

Árbitros Portugal (AP) – O que faz para além da arbitragem?

Marlene Vieira (MV) – Estou licenciada em Engenharia de Ciências Agrárias, mas, neste momento, por falta de oportunidades de trabalho, estou a trabalhar como administrativa.

AP – A arbitragem surge como uma segunda ocupação?

MV – Eu já tenho 11 anos de arbitragem. Na altura, estava a fazer o Ensino Secundário, surgiu uma notícia no jornal e tirei o curso. No início, quando comecei a ser nomeada, achei que não conseguiria aguentar o nível de jogos que tinha, que era todos os fins-de-semana, mas, passado um ano ou dois, optei por seguir a arbitragem como hobby, até onde conseguisse ir com as minhas capacidade físicas e psicológicas, bem como até onde as classificações me permitissem continuar na arbitragem.

“Muitas vezes, são insultos que não vou pronunciar, mas também há piropos bons”

AP – Como é arbitrar jogos de homens? Pensa que eles têm mais respeito a um juiz do sexo feminino?

MV – Não. Arbitrando homens ou mulheres, o respeito é o mesmo. Se houver vontade deles em reclamar de uma decisão, há igualdade. Não há diferença em estar um homem ou uma mulher a arbitrar. Pelo menos eu, como mulher, não sinto diferença alguma.

AP – Recebe insultos dos jogadores ou vindos das bancadas? Se sim, em que consistem?

MV – Eu ouvir, oiço. Quanto a isso ter influência em campo, trata-se de uma questão à parte e não interfere. Muitas vezes, são insultos que não vou pronunciar, mas também há piropos bons.

AP – Isso é algo que, no caso de ser um árbitro a apitar, não haveria…

MV – Eu penso que sim. A nível de piropos, uma vez que a maior parte dos espectadores é homem, não há sobre um homem o que há sobre uma mulher.

AP – Como sentiu motivação para enveredar pela arbitragem, sendo uma área quase exclusivamente de homens?

MV – Foi uma situação caricata, tendo em conta que vi uma notícia no jornal de um curso para árbitros. Na altura, era a única como árbitra no Conselho de Arbitragem de Braga. Levei a minha vontade para a frente porque os meus colegas me incentivaram a não desistir. Antes de ver a notícia, não sabia nada sobre a arbitragem.

AP – Até onde quer chegar na arbitragem?

MV – Neste momento, a idade já não me permite chegar aos campeonatos nacionais de seniores masculinos. No que diz respeito à arbitragem internacional, há a via feminina, mas, também pela idade, já estou no limite de poder alcançar esse objectivo.

Marlene Vieira à civil

AP – Sente dificuldade em seguir o ritmo competitivo dos homens?

MV – Não tenho dificuldade. Uma vez que temos grande quantidade de jogos, estamos com a capacidade física sempre em forma. É claro que, se tivermos sempre jogos de velocidade baixa, quando tivermos um jogo de ritmo mais acelerado, sentimos um bocado a diferença. Mas, pelo menos até hoje, não vejo que isso me tenha prejudicado.

AP – As mentalidades do futebol português estão receptivas à arbitragem feminina?

MV – Já há mais conhecimento sobre isso. A nível feminino, já há muitas pessoas informadas, mas ainda consigo ir a determinados campos e as pessoas ficam admiradas por aparecer uma mulher-árbitro. Acho que, mesmo na imprensa, a arbitragem feminina já está mais divulgada, talvez por haver árbitras estrangeiras no topo e, então, tornaram a arbitragem portuguesa também um pouco mais divulgada.

AP – Sente que a Associação de Futebol de Braga lhe dá tanto apoio como dá aos homens?

MV – (Pausa) Sinceramente, eu acho que não, no aspecto de o número de árbitras em si não ser elevado e não levar a associação a entender que há qualidade nas árbitras. Enquanto temos apenas 10 árbitras na Associação de Futebol de Braga, temos 300 árbitros. Claro que há mais por onde demonstrar qualidade nos homens, uma vez que há um grande número.

“Acho que pode haver qualidade na arbitragem sem haver profissionalização”

AP – Deve ter simpatia por algum clube. Se apitasse um jogo dessa equipa, acha que se sentiria influenciada na tomada de alguma decisão?

MV – Qualquer árbitra tem simpatia por algum clube, mas isso também se desfaz ao longo do tempo que passamos na arbitragem. Não deixamos de ter essa pequena simpatia pelo clube, mas, no meu caso, o clube pelo qual tenho simpatia não está nos campeonatos que eu arbitro. Tinha mais simpatia pelo clube antes de ser árbitra, depois sinto que foi diminuindo o interesse em vibrar pela equipa quando ganha.

AP – Já foi aliciada para viciar o resultado de um jogo?

MV – Nunca me aliciaram para que pudesse favorecer alguma equipa.

AP – Acha que a profissionalização da arbitragem é importante? E, se isso vier a acontecer, acha que as mulheres serão colocadas de parte?

MV – Acho muito cedo para falar da profissionalização ao nível da arbitragem feminina, quando nem sequer se fala em termos de jogadoras. Ao nível masculino, penso que o profissionalismo no papel não tem a ver com a arbitragem. Acho que pode haver qualidade na arbitragem sem haver profissionalização.

“Só desistirei por uma questão física ou outra que não passe apenas pela vontade de desistir”

AP – Como conjuga a vida pessoal e profissional com a arbitragem?

MV – Como qualquer desportista. Claro que a arbitragem ocupa bastante tempo, com treinos durante a semana e jogos ao fim-de-semana, mas há sempre tempo para estar com os amigos, para sair e para ter o trabalho durante a semana.

A árbitra Marlene Vieira no Estádio Cidade de Barcelos

AP – O que significa para si ser árbitra de futebol?

MV – Hoje, sinto-me bem, sinto-me realizada. Não pensava isto no meu primeiro ou segundo ano de arbitragem. Ao fim de 11 anos, sinto-me bem pelo que fiz, pelo que estou fazer e só desistirei por uma questão física ou outra que não passe apenas pela vontade de desistir.

AP – O caso da árbitra Ana Paula Oliveira, que posou nua para uma conhecida revista masculina e que viu esse episódio muito divulgado na imprensa, contribuiu para dar mais visibilidade à arbitragem feminina ou para a descredibilizar?

MV – Acho que não credibilizou nem descredibilizou. Foi uma decisão isolada de uma árbitra que não influenciou as outras, até porque ela já era conhecida no Brasil.

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